A VISIBILIDADE POR TRÁS DAS MÁSCARAS

#105

Luciana Santos Guilhon Albuquerque
ROSA MARIA LEITE RIBEIRO PEDRO

Uma das principais personagens das manifestações de junho de 2013, que tomaram as ruas de diversas cidades do Brasil, foram as máscaras. Objeto tão antigo e tão universal marcou presença nas passeatas, impulsionando alguns debates. Inspirado na exposição “objetos desobedientes”, que apresentou objetos utilizados em manifestações ao redor do mundo, esse trabalho pretende fazer uma reflexão sobre as controvérsias geradas pelo uso de máscaras nas recentes manifestações brasileiras. A exposição acontece em Londres, até fevereiro de 2015, contando a história dos protestos a partir do uso de alguns objetos.
Por que falar de máscaras? Ou melhor, o que as máscaras podem dizer sobre nós e sobre as diversas dinâmicas de vigilância e visibilidade que atravessam nosso cotidiano atualmente? Ao elegê-las como objeto de interesse, compartilhamos da proposta da Teoria Ator-Rede (TAR) que considera a realidade social como uma rede composta de atores humanos e não humanos em constante construção. Os objetos participam conosco da construção do mundo, afetando nossa forma de agir e transformando nossos modos de ser. Da mesma forma, são afetados por nossas ações e pela rede ao qual estão conectados. O ponto é que ninguém age sozinho e qualquer fenômeno deve ser analisado como uma ação coletiva e compartilhada. A fim de refletir sobre as dimensões da vigilância contemporânea que atravessaram as manifestações, elegemos as máscaras por ser um dos atores que ganharam visibilidade nesse processo, apostando que têm algo a nos dizer.
Partiremos de algumas entrevistas realizadas como parte de uma pesquisa de doutorado e da análise de páginas na Internet e Facebook de dois coletivos que se destacaram pelo uso das máscaras: o Anonymous e os Black Blocs. Ambos apareceram primeiro no exterior e com a globalização e a Internet chegaram ao Brasil. Ambos atuam e se sustentam usando a Internet e redes sociais como o Facebook. O primeiro começou a atuar no Brasil em 2011 e se caracteriza por um hacktivismo. É atento ao monitoramento digital e em suas páginas na Internet é possível encontrar explicações e dicas para proteção da privacidade na rede. Tem uma máscara símbolo, inspirada no personagem Guy Fawkes do filme V de Vingança e seu uso não é a toa, uma das funções é garantir a segurança de quem quer se manifestar frente à repressão policial. Os Black Blocs surgiram com força durante as manifestações de junho de 2013, antes disso não há registro de sua atuação. Não possuem uma máscara símbolo, mas se vestem de preto e cobrem o rosto para dificultar e impedir sua identificação por autoridades policiais. Não parecem estar tão preocupados com o monitoramento digital.
É possível extrair um primeiro sentido para o uso de máscaras ligado a uma definição mais corriqueira e comum, tirada de dicionário, que nos remete à ideia de disfarce e proteção. Por disfarce, podemos entender que sua função principal seria falsear e distorcer uma imagem. Ao dar visibilidade e apresentar uma fisionomia a ser vista e admirada, ela esconderia atrás de si um rosto, este sim verdadeiro e protegido pela invisibilidade. Além de proteger contra olhares invasivos, ela pode ganhar um sentido de escudo contra ataques vindos de fora.
Para alguns manifestantes, a máscara serviria para esconder o próprio rosto, dificultando o trabalho de identificação pelas autoridades e protegendo-os da repressão policial. Num mundo atravessado por objetos técnicos que podem capturar imagens, qualquer pessoa em qualquer momento pode ter sua imagem capturada, gravada e circulada sem nem saber. O uso posterior dessa imagem escapa a qualquer tipo de controle, o que parece produzir uma sensação de vulnerabilidade muito grande, talvez maior do que na época da repressão ostensiva da ditadura. O policial não precisa estar presente, apenas a sutil possibilidade de ser filmado já produz o risco de ser objeto de investigação e monitoramento pela polícia. E a máscara serviria para tentar proteger pelo anonimato e invisibilidade, estados cada vez mais difíceis de serem alcançados num mundo crescentemente monitorado.
Ao se tornarem um objeto de resistência à vigilância do Estado, ela passa a ser um problema. Para a polícia, a máscara esconderia criminosos, que se aproveitariam do anonimato para praticarem atos de vandalismo. Nem todos que participaram das manifestações usaram máscaras ou esconderam os rostos com camisas, talvez uma minoria o tenha feito, mesmo assim elas se colocaram no centro dessa polêmica, que culminou com um projeto de lei proibindo seu uso em eventos públicos. Além da vigilância digital, a polícia também se fez presente e o bom e velho uso da força e da violência serviram para reprimir os manifestantes/vândalos, fazendo surgir outro uso para as máscaras, a proteção contra o gás lacrimogênio, arma não letal, usada massivamente pela polícia para dispersar a multidão.
A máscara protege ou esconde? Quem está por trás das máscaras são vândalos ou manifestantes, vítimas da agressão policial ou criminosos que precisam ser identificados? Cada lado constrói discursos para defender seu ponto de vista. Os black blocs se colocam como uma tática de reação à violência policial, que busca se justificar pelos atos de vandalismo de algumas pessoas presentes na manifestação. A grande mídia fez circular fortemente o discurso que ligava mascarados a vândalos, contribuindo para justificar a violência policial. Por outro lado, as mídias alternativas e a Internet deram espaços a outros discursos. Houve relatos e vídeos no Youtube e Facebook, por exemplo, de pessoas que foram detidas sem justificativas e do uso abusivo de bombas de gás lacrimogênio, muitas vezes lançadas em locais onde nada acontecia.
Apesar dos embates, parece haver um ponto de convergência, a busca por uma invisibilidade que protege. Enquanto manifestantes procuram usar máscaras, policiais muitas vezes saíram sem identificação, o que é ilegal. Além disso, muitos jornalistas e pessoas que estavam filmando e tirando fotos foram agredidas. Ter sua imagem capturada também parece ser um risco para a polícia, que atua como representante do Estado. Este parece pretender ser o único detentor dos mecanismos de vigilância, mas a popularização de objetos que capturam imagem coloca na mão de cidadãos comuns a possibilidade de vigiar seus vigias. Muitas imagens de policiais cometendo abusos ou transgressões circularam na Internet.
Outro sentido para o uso das máscaras, também vem de atitudes tanto do Anonymous quanto dos Black Blocs. Ambos criaram uma forma de se apresentar cobrindo os rostos para expressar uma ideia: justificam o uso das máscaras como uma forma de criar uma identidade coletiva, diluindo o protagonismo individual numa massa. O ato anônimo carrega consigo a força de um grupo, uma vez que a ação não seria responsabilidade de apenas um indivíduo, mas é resultado de uma construção coletiva e, portanto, pública. Diz respeito a uma experiência subjetiva em que o outro está incluído e vem para somar. A afirmação de uma individualidade própria não está em questão, mas a vivência de uma irmandade ganha força, dentro de uma perspectiva em que eu só existo conectado com os outros. Essa ideia se traduz na formação horizontal desses grupos, que pretender não possuir líderes.
Nesse sentido a máscara não é uma forma de se manter invisível, mas de criar uma visibilidade própria, é uma forma de expressar uma ideia, que se opõe à individualização da ação. E mais uma vez se apresenta como resistência aos mecanismos de vigilância do Estado, que tentou usar a estratégia de identificar líderes e prendê-los para minar a possibilidade de novas manifestações. Além disso, ao afirmar a possibilidade de uma identidade coletiva se configura como uma resistência à ideologia neoliberal e ao individualismo que parecem dominar o cenário político atual.
Como terceiro sentido, um entrevistado chamou a atenção para a força de empoderamento que a máscara trouxe para alguns indivíduos, que com ela se sentiram à vontade para agir de uma forma mais solta. O fato de estar ou não com máscara fazia diferença na forma de atuar no mundo, como se a máscara permitisse ao sujeito ser e fazer o que jamais faria sem a máscara. Não exatamente em relação à ação direta (ataque a bancos e grandes corporações), mas a se expressar com mais eloquência e afetividade. O que se opõe à ideia corrente de que o verdadeiro "eu" aparece ao tirar a máscara. Nesse caso, o "eu" se constrói ao colocar a máscara, ela surge como um elemento que ajuda a compor uma forma de ser e atuar no mundo.
Resumidamente, podemos dizer que as máscaras escondem, protegem, revelam e potencializam rostos, indivíduos, ideias e ações. Num mundo que se constrói cada vez mais vigiado, esconder-se não se apresenta como a única resistência a uma visibilidade que se impõe. A possibilidade de construir uma imagem e poder operar, escolhendo o que deve ser visto, também encontra seus caminhos de resistência.

Palavras-chave: visibilidade, máscaras, manifestações, internet.